Pular para o conteúdo principal

A História do Sci-Fi (Parte 09 de Alguns) - O Futuro do Futuro!

     A virada do milênio veio e se foi, para muitos autores, estamos no futuro. O eterno debate entre Utopia e Distopia continua mais forte do que nunca e os grandes mecanismos que movem o mundo continuam a girar. Resta a pergunta: para onde vamos daqui? Qual o futuro da Ficção Científica?

    Para deixar claro:  minhas publicações até aqui tinham um viés mais de análise literária, mas nesta postagem, tentarei fazer algo um pouco diferente; tentarei analisar para onde vamos à partir de onde estamos. O que estou prestes a apresentar nessa parte da série é especulativo na melhor das hipóteses.

    Ademais, como vimos ao longo da série, basta um grande evento, um novo modelo produtivo ou uma produção midiática inovadora e tudo pode mudar no gênero. Gernsback salvou a Ficção Científica ao criar o "pulp", a Guerra Fria mudou completamente o modo como as distopias se entendiam e Star Wars matou o New Age.

    E para dificultar um pouco mais minha vida, estamos em um período onde esses três fatores estão em vigor: o "on demand" está dominando o mercado de distribuição, Vingadores: Ultimato recentemente se tornou a maior bilheteria da história do mundo e o COVID-19 reformatou nossas percepções de mundo de uma forma rápida e brutal.

    Portanto talvez um título melhor para essa postagem fosse "O Que Eu Acho Que Vai Acontecer Se Nada Acontecer Que Mude O Que Eu Acho Que Vai Acontecer". A sonoridade não me parece tão boa...

    Isso posto, vamos à eles:

"A raça humana pode estar prestes a desaparecer, mas não sem antes se entregar a uns dois anos de frenético sexo recreativo"

    Em Seveneves (ainda sem direito de publicação no Brasil), Neal Stephenson nos apresenta um misto de futurismo e distopia apocalíptica causada pela explosão da Lua. As questões que se seguem, entretanto, começam a mergulhar em teoria genética e manipulação gênica, alcançando o ponto de sub-especiação do ser humano. Nesse aspecto, o futurismo que vislumbramos na obra nos apresenta novas linhas de problemas derivadas dos novos patamares que a ciência corrente ocupa.
    
    Ainda na verve do futurismo, temos o filme Interestellar, que nos apresenta uma sociedade com problemas de produção alimentar buscando colonizar um outro planeta; é possível traçar paralelos dos problemas apresentados no começo do filme com a sombra do aquecimento global que paira sobre nossas cabeças, ainda que isso nunca seja dito ipsis literis.

"Liberdade não é uma ilusão; é perfeitamente real no contexto de consciência sequêncial. No contexto de consciência simultânea, liberdade não é relevante, nem o é coerção; é simplesmente uma diferença de contexto, não mais ou menos válida que o outro."

    "História da Sua Vida" é o conto que inspirou o filme "A Chegada", e ele me pegou completamente de surpresa. Eu nunca havia lido nada de Ted Chiang e, na verdade, nunca havia ouvido falar sobre o autor antes do filme A Chegada e de descobrir que o filme se baseara em um livro. Em minha defesa, Chiang é um escritor de contos e eu não costumo consumir contos com muita frequência.

    Após A Chegada, fui atrás de "História da Sua Vida e Outros Contos" e me deparei com uma escrita não apenas boa nos conceitos que apresenta, mas de uma leitura muito prazerosa. O livro em si contém contos de Ficção Científica e Fantasia e é uma recomendação que posso fazer sem peso na consciência. "O Inferno é A Ausência de Deus" e "A Evolução da Ciência Humana", junto do conto que dá título ao livro são, sem sombra de dúvida, meus preferidos (e tem direito a comentários do autor na sessão "Story Notes" que valem MUITO à pena ler).

    Mas mais do que um livro que me conquistou, História traz no ar duas coisas que muito me agradaram: o frescor de algo que, buscando abordar o futurismo, o faz sob a ótica de ciências nem sempre tão valorizadas (como a linguística, na obra titular); além de questões mais filosóficas e até em diversos pontos espirituais, trazendo de volta certas premissas do movimento New Wave. Talvez, só talvez, mas um talvez que muito alegraria meu coração, haja ainda espaço para que o New Wave renasça, ainda que talvez sob outra roupagem. Fiquemos de olho em Ted Chiang.

    Alias, falando em ficar de olho, Denis Villeneuve foi o diretor por trás do filme Interestellar, de Blade Runner 2049 e agora tem Duna nas mãos: se haverá uma revolução cinematográfica no gênero e eu fosse obrigado a apostar em de onde ela viria, minhas fichas estariam nele!

"Destruir as coisas é muito mais fácil que construí-las"

    Jogos Vorazes, o livro que deu origem aos filmes, surge de uma crítica mista ao vício da sociedade moderna em Reality Shows e à guerra. Suzanne Collins nos mostra que a Ficção Científica pode ser levada não só a novos patamares, mas a novos públicos; ao lançar seus livros como infanto-juvenis, ela se permite discutir questões altamente íntimas dentro de suas críticas sociais. Uma série de histórias surgiriam nos anos seguintes nos moldes da série de Collins, mas creio que ainda estamos por ver o real impacto que a direção para a qual ela apontou as distopias há de ter.

    Além desses que citei, começa também a surgir um movimento que está sendo chamado de Pós-Cyberpunk, que busca adotar muitos dos conceitos e estéticas apresentados pelo Cyberpunk em questões como bioengenharia e nanotecnologia. O movimento, por sua natureza, ainda está engatinhando e não me parece certa a forma que irá tomar. Falta, parece-me, emplacar ainda um grande título que lhe vá dar peso e relevância.

    E com isso chegamos ao fim de nossa série, ou não exatamente. Chegamos ao fim da jornada mas ainda há mais uma postagem que quero fazer antes de deixar essa série morrer, mas será mais uma oportunidade de trazer comentários e adições que não couberam exatamente no que postei até agora. E também porque 10 é um número mais bonito para encerrar uma série do que 9... Até lá.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Quem é Quem na Narrativa - O Vilão!

       Antes de começarmos a conversa de hoje, eu preciso fazer um disclaimer: esse é, sem sombra de dúvidas, o meu tópico preferido em teoria narrativa e eu poderia facilmente passar DIAS falando só sobre isso (sério, eu conseguiria escrever uma série só sobre a construções de vilões - e nem descarto completamente que um dia eu vá). Não só o vilão é o papel narrativo mais interessante e rico, ao meu ver, como ele é facilmente aquele com mais exemplares icônicos e épicos, além de ser o personagem que mais potencial tem para enriquecer uma boa narrativa. Uma história pode se sustentar por um bom vilão, mas uma boa história é elevada a níveis memoráveis por um vilão bem construído! Quer um exemplo: Senhor dos Anéis! A trilogia é sensacional, mas a presença da constante ameaça de Sauron e Saruman elevam a obra. Dentre as frases mais citadas de Senhor dos Anéis, talvez a mais reconhecível seja a "(...) Um anel para a todos governar, Um anel para encontrá-los. Um anel par...

Eu sou Malala: A história da garota que defendeu o direito à educação e foi baleada pelo Talibã

Biografia por Malala Yousafzai É a história de uma família exilada pelo terrorismo global, da luta pelo direito à educação feminina e dos obstáculos à valorização da mulher em uma sociedade que privilegia filhos homens. Quando o Talibã tomou controle do vale do Swat, uma menina levantou a voz. Malala Yousafzai recusou-se a permanecer em silêncio e lutou pelo seu direito à educação. Mas em 9 de outubro de 2012, uma terça-feira, ela quase pagou o preço com a vida. Malala foi atingida na cabeça por um tiro à queima-roupa dentro do ônibus no qual voltava da escola. Poucos acreditaram que ela sobreviveria. Mas a recuperação milagrosa de Malala a levou em uma viagem extraordinária de um vale remoto no norte do Paquistão para as salas das Nações Unidas em Nova York. Aos dezesseis anos, ela se tornou um símbolo global de protesto pacífico e a candidata mais jovem da história a receber o Prêmio Nobel da Paz. Eu sou Malala é a história de uma família exilada pelo terrorismo global,...

A Jornada do Herói (Parte 4 de 6): A Jornada da Infância

Agora estamos nos aproximando cada vez mais do nosso objeto de interesse principal aqui no grupo, os livros, a literatura. Mas antes de chegarmos propriamente a estes, vamos ainda passar por outro momento de amadurecimento, as histórias infantis, ou contos infantis. Não que estes não possam compor livros maravilhosos, como eu disse escrever estes textos me remete a minha própria jornada, eu mesmo tive acesso a muitos livros de histórias infantis em minha infância, coleções lindas de contos para as crianças. E eu entendo que estes são uma necessidade, sim, histórias e Jornadas diferentes para diferentes idades e momentos de maturidade. Campbell (CAMPBELL, 2020) diz: Os mitos formulam as coisas para você. Eles dizem, por exemplo, que você deve se tornar adulto, em determinada idade. Campbell (CAMPBELL, 2020) ainda faz várias afirmações nesse sentido, inclusive que “todos os mitos lidam justamente com a transformação da consciência, de um tipo ou de outro” e continua: Um conto de fadas é...