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A História do Sci-Fi (Parte 10 de Alguns) - Notas, Desabafos e Adendos

     Ao longo dessa série, recomendei diversos livros que são historicamente importantes para a Ficção Científica e demonstram ou representam a epítome de um subgênero, movimento, ou época. Em pontos precisei me questionar sobre decisões de recomendações ou sugestões, então determinei para mim mesmo que selecionaria os livros baseados em sua relevância histórico-literária. Enquanto não me arrependo dessa decisão, confesso que ter me furtado a mencionar certos autores e livros deixou-me levemente frustrado, então me permitirei nessa postagem acrescer algumas recomendações de última hora que, apesar de não terem mudado um gênero, representado um movimento ou sido a epítome da escrita de um autor extremamente importante, são leituras que eu fortemente recomendo.

"'Eu prefiro ser eu mesmo', ele disse. 'Eu mesmo e sórdido. Não outra pessoa, por alegre que seja.'"

    Admirável Mundo Novo é um livro que se nem bem se encaixa no período inicial das Distopias, nem bem no final e também não adota os temas transicionais apocalípticos para caber como um exemplo de ponto intermediário. Isso posto, o livro é uma distopia maravilhosa de ser lida e aborda questões de individualidade e de o que é ser você mesmo.

"Eu quero ficar tão perto da borda quanto eu puder antes de cair. No limite você vê todas as coisas que não consegue ver do centro".

    Piano Mecânico e Fahrenheit 451 ocupam mais ou menos a mesma posição na história das distopias e, sabendo que eu poderia usar Ray Bradbury como linha-guia para conectar os diversos pontos da História do Sci-Fi, eu fiz talvez a maior injustiça da série e ocultei a importância de Vonnegut no gênero. Piano Mecânico retrata uma sociedade distópica em que as pessoas são classificadas por sua inteligência e faz uma crítica ao processo de automação desenfreado e à divisão da pessoa em castas; funciona também como uma forte ferramenta de crítica aos instrumentos de controle social e, em certo nível aos princípios da meritocracia.

"Mas quem se lembra da dor quando ela acaba? Tudo que sobra é uma sombra, e ela não está sequer na mente, mas na carne. A dor te marca, mas profundamente demais para ver. E o que os olhos não vêem, o coração não sente."

    Novamente uma questão de escolha injusta. O Conto da Aia é, ao lado de Jogos Vorazes, a grande distopia moderna. Enquanto Jogos Vorazes tem uma verve mais popular e critica temas como guerra e estratificação social, O Conto da Aia é uma narrativa distópica feminista que questiona temas como o papel da mulher na sociedade e os perigos da imposição religiosa.

"Não há um final real. É só o ponto onde você para a história."

    Essa aqui foi uma decisão consciente e com um motivo bem simples, na verdade. Por mais que eu adore Duna - e acredite, eu adoro Duna - eu sabia que não haveria meios de falar sobre Herbert sem falar sobre Tolkien, e falar sobre Tolkien envolvia fazer ao menos ALGUMA contextualização histórica e literária sobre o gênero de fantasia na década de 70, e isso provavelmente comeria parágrafos do blog antes de eu conseguir COMEÇAR a falar sobre Duna. O livro é maravilhoso e vale MUITO à leitura, só um aviso: o 'core' de Duna são 3 livros, mas se você for querer ler TUDO, estamos falando de uma icologia (ou seja, 20 livros no total).

    E provavelmente mesmo agora, conforme edito isso, estou esquecendo de títulos bons. Alas, sou perfeitamente ciente de minhas falhas como ser humano para me atrever a dizer que eu vá conseguir lembrar de todas as menções importantes.

    Outra coisa que creio que a série deixou claro foi o domínio absoluto do mercado americano no gênero. Como a natureza da série é histórica, não consegui fugir disso, mas acho importante valorizarmos também obras de outras regiões, a questão aqui é que essas outras regiões normalmente não tem um mercado assim tão amplo.

    No Brasil, a Primeira Onda de Ficção Científica (que ficaria conhecida como Ficção G. R. D., por ser alavancada por uma revista com essa sigla que vinha do nome de seu editor) teria início em 1957, mas ficaria majoritariamente no escuro e morreria tão silenciosa quanto surgiu. A Ficção só começaria realmente a ganhar terreno no território nacional durante sua Segunda Onda, em idos de 80 e início de 90, com seu primeiro título a alcançar popularidade vindo de Marcelo Cassaro, famoso por sua atuação no RPG Tormenta.

    

    O livro segue uma linha de um certo militarismo espacial levemente Heimleiniano, mas ainda usa, em sua essência, muitos dos elementos da fantasia para mover a história. Confesso não ter lido a obra, mas parece haver um consenso que enquanto os elementos estéticos da Ficção estejam ali, faltam à obra os elementos filosóficos que tanto marcam o gênero.

    Atualmente o Brasil se encontra no movimento chamado de Terceira Onda, onde revistas aos modos da Ficção Pulp tentam se encaixar no mercado editorial nacional por editoras como a Multifoco, mas ainda falta ao país um grande título que de rosto e forma às publicações nacionais.

    Na Europa, as publicações seguem mais ou menos à cultura estabelecida pelo mercado americano, com algumas exceções notáveis, como Nós, de Ievguêni Zamiátin ou Solaris, de Stanislaw Lem. Mas, se tiver que escolher um para referenciar:


    Partindo da premissa de um mundo que recebe diversas visitações alienígenas e tenta conviver com isso, o livro soviético tem ares Clarkeanos que lembram O Fim da Infância, mas um ritmo mais próximo às obras apocalípticas do Leste Europeu como Rain.

    Na cultura africana, começamos agora a ter a configuração do chamado Afrofuturismo, que está sendo popularizado por autores como Nnedi Okorafor e Newbery Honor. Entretanto, infelizmente, tais autores ainda não foram publicados no Brasil.

    O que me leva a um breve desabafo sobre a situação brasileira: vivemos um eterno "Dilema Tostines" ("Tostines vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais") em que não vemos publicação e fica no ar a dúvida de se isso não ocorre por não termos público ou se não temos público por não ter publicação. Acho que o espaço existe, mas falta alguma editora que tenha tanto os meios e recursos quanto o interesse de inserir o gênero na cena nacional.

    Mas enfim, com isso acho que consegui concluir, se não de forma completa, de forma que não me tire o sono, a nossa série. Espero que tenham gostado e que eu tenha despertado ao menos a curiosidade de ler mais sobre o gênero. Se ao menos um livro que eu apresentei aqui despertou seu interesse, então minha missão já está concluída.

    Quer ver mais séries dessas? Que gênero você gostaria de conhecer mais em seguida? Comenta aí!

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